O Arquipélago Gulag", de de Aleksandr Soljenítsin: expondo a brutalidade do Comunismo
- Andre Rodrigues Costa Oliveira
- 6 de jun. de 2025
- 7 min de leitura
A nossa aula de hoje abordará o livro escandaloso de Aleksandr Soljenítsin de nome Arquipélago Gulag, publicado em dezembro de 1973 em Paris.
Antes de mais nada, uma brevíssima biografia do Autor e uma dissertação precisa do que foi exatamente um Gulag.
Aleksandr Soljenítsin foi um escritor, historiador e dissidente soviético, nascido em 1918 e falecido em agostode 2008, em Moscou.
Soljenítsin, educado como matemático e físico, desde cedo cultivou um amor profundo pela literatura russa clássica. Lutou contra os alemães como oficial do Exército Vermelho na Segunda Guerra Mundial, mas em 1945 foi preso por criticar Stalin em cartas privadas enviadas a um amigo — o que o condenou a oito anos de prisão nos campos de trabalho forçado, os chamados Gulags, seguidos de exílio interno.
E foi justamente essa experiência nos campos que alimentou a sua obra-prima: “Arquipélago Gulag”, publicada clandestinamente em 1973 no Ocidente, é uma narrativa monumental que combina memória pessoal, relatos de sobreviventes e documentação histórica sobre o sistema soviético de repressão e campos de trabalho.
O livro foi um choque global, porque desmascou, com vigor literário e precisão documental, a face totalitária do regime soviético, revelando ao mundo as dimensões monstruosas do sistema carcerário comunista, constrangendo aí milhares de intelectuais e de pseudo-intelectuais pelo mundo afora que se diziam comunistas e que defendiam o regime imposto na união soviética.
Soljenítsin recebeu inclusive o Prêmio Nobel de Literatura em 1970, mas só pôde buscá-lo após ser expulso da União Soviética em 1974, vivendo no exílio nos EUA até sua volta à Rússia em 1994, já com o fim do regime comunista.
E afinal o que era um gulag? GULAG é o acrônimo de “Glavnoe Upravlenie Lagerei”(Administração Principal dos Campos de Trabalho), uma espécie de diretoria do NKVD (depois transformada em KGB, o serviço secreto russo) que organizava o sistema de campos de prisioneiros soviéticos, principalmente durante o regime de Stalin, que durou entre 1924 e 1953, até a sua morte, e que provavelmente foi recebida com honras de chefe de estado lá no inferno.
O GULAG funcionava então como um sistema de prisões e campos de trabalhos forçados destinado a presos políticos, intelectuais, religiosos, minorias étnicas, mas também a criminosos comuns e pessoas presas por motivos absurdos (como contar uma piada sobre Stalin, por exemplo); era um instrumento de repressão ideológica e econômica, já que os presos eram usados para construir ferrovias, minas, fábricas, e até cidades inteiras em regiões remotas e inóspitas, como a Sibéria.
E aí eu cito as palavras do próprio Soljenítsin: “O GULAG é um arquipélago espalhado por todo o território soviético, como um vasto sistema de ilhas prisionais subterrâneas, invisíveis ao cidadão comum, mas tão reais quanto uma rede de cidades.”
Estima-se que dezenas de milhões de pessoas passaram pelo sistema entre os anos 1930 e 1950, e milhões morreram de fome, frio, abusos ou execuções sumárias.
Os gulags soviéticos foram palco de algumas das mais brutais práticas de repressão, tortura, desumanização e extermínio do século XX. O próprio Aleksandr Soljenítsin os chamava de “o lado sombrio da alma soviética, onde a maldade se tornava rotina e a verdade, um crime.”
Como eu já disse, as prisões eram arbitrárias e absurdas, tais como uma piada sobre Stalin, possuir um livro religioso, ter um parente no exterior ou simplesmente ser denunciado por inveja, ciúmes ou vingança pessoal de um vizinho, por exemplo. Ah, e essas acusações todas, segundo Soljenítsin, eram fabricadas por quotas e por metas que deveriam ser batidas mensalmente.
As torturas eram sistemáticas nos interrogatórios, tais como a chamada “Reeducação pelo frio”, quando presos eram deixados nus em celas sem aquecimento na Sibéria até desmaiarem de hipotermia, “Cavaletes” que suspendiam os detentos pelos braços atados para trás, por horas, a privação de sono por dias, até que a mente entrasse em colapso, espancamentos, uso de choque elétrico, afogamentos simulados e por aí vai.
Segundo Soljenítsin, “A tortura era uma ciência exata. Sabia-se em quantos dias, por que método e com que palavras extrair uma confissão.” Além disso os prisioneiros eram obrigados a trabalhar até 16 horas por dia em temperaturas de até -50 °C, em minas de carvão, construção de ferrovias, extração de madeira ou escavações de canais.
Havia também um espaço para mulheres prisioneiras nos Gulags, que eram diariamente estupradas por carcereiros e por outros presos (normalmente os chamados presos comuns e mais fortes, que eram usados propositadamente como instrumentos para manter o controle sobre os presos políticos).
Na narrativa de Soljenítsin, aspas, “A noite nos campos era uma feira de horrores para as mulheres. Quem recusava, apanhava. Quem aceitava, perdia o nome.” Também ocorriam humilhações públicas, como raspar a cabeça das mulheres ou obrigá-las a andar nuas no frio, como forma de punição. - e daí eu fico imaginando as mulheres de hoje que defendem o regime comunista sob o manto da liberdade e do feminismo, e que não fazem a menor ideia do que estão dizendo (ou são detentoras de problema de caráter). E, como consequência, obviamente nasciam nos gulags, chamadas de filhos de “traidores do povo”, que enviadas a colônias especiais e cresciam igualmente sem nome, sem pais e sem memória.
A alimentação nos campos era miserável: um pão duro por dia, caldo ralo, às vezes com cascas de batata. A regra era a fome permanente, e muitos prisioneiros comiam ratos, cascas de árvore, sabão ou até mesmo cadáveres de outros prisioneiros. Sim, houve episódios de canibalismo. Isso tudo levou à propagação de doenças como tifo, escorbuto e tuberculose, que matavam aos milhares. Soljenítsin escreve em um trecho de seu livro: “Comíamos a própria alma, e ela sangrava de fome.”
Eu mencionei agora há pouco a existência dos prisioneiros políticos e dos criminosos comuns, deixa eu explicar melhor: o sistema soviético intencionalmente misturava presos políticos (intelectuais, religiosos, professores, pensadores, cientistas, dissidentes em geral) com criminosos comuns, que frequentemente tinham mais privilégios e podiam agir com violência sobre os demais. Soljenítsin observa no livro: “O bandido é um elemento revolucionário, dizia a doutrina. Já o pensador é um perigo.”
Nos gulags, portanto, o prisioneiro não tinha nome — era um número despersonalizado. Perdia todos os direitos civis, não podia escrever, falar sobre o passado ou sequer chorar. O campo não matava só o corpo: matava a memória, o nome, a ideia de que se era humano.
Contudo, existia, sim, alguma resistência: muitos presos tentavam manter a fé, a arte, a poesia e a dignidade: alguns escreviam versos com pedaços de carvão em lenços, depois os memorizavam e queimavam. Outros improvisavam missas, orações, peças de teatro e muitos ainda que diante da dor e da barbárie, se recusavam a assinar confissões, mesmo sob tortura. Soljenítsin escreveu: “A alma humana não se dobra eternamente. No meio do inferno, brota a semente da verdade.”
E agora voltando à origem do livro em si: em 2 de junho de 1968, Alexander Solzhenitsyn concluiu e enviou secretamente o manuscrito de sua obra para além das fronteiras da União Soviética. Em seu diário, ele escreveu: “O Arquipélago está terminado, o filme foi rodado, enrolado em uma cápsula... A partida será aventureira, com grande risco...”.
Este dia se tornou um ponto de virada não apenas para o escritor e sua família, mas para toda a Rússia e demais países que compunham o bloco da união soviética, cujas almas eram atormentadas diariamente pelas mentiras e pela tirania sangrenta do comunismo.
O livro de Solzhenitsyn, que revelou a verdade sobre as atrocidades do regime soviético desferiu um golpe esmagador na ideologia de Lenin, Stalin, Trotsky e seus capangas, mostrando que o comunismo não é apenas mentiras e assassinatos, mas também um sistema incompatível com a retidão, com a humanização das pessoas, com valores morais, espirituais e com a própria alma do povo russo - aliás não apenas com a alma do povo russo, mas com todo e qualquer povo que habita o planeta.
O autor definiu o gênero de sua obra como “pesquisa artística – trata-se de um uso de material factual (não transformado) da vida, de modo que a partir de fatos individuais, fragmentos, conectados, porém, pelas capacidades do artista, a ideia geral emergiria com evidência completa, não mais fraca do que na pesquisa científica”.
Este livro se tornou não apenas uma obra literária, mas um ato espiritual que expôs a essência ímpia do comunismo, que pisoteava a fé e as tradições do povo russo. Soljenítsin escreveu no prefácio: “Com o coração pesado, abstive-me durante anos de publicar este livro já concluído: o dever para com os que ainda estavam vivos superava o dever para com os mortos. Mas agora que a segurança do Estado confiscou este livro de qualquer maneira, não tenho escolha a não ser publicá-lo imediatamente.” Essas palavras refletem a missão de revelar a verdade, que se tornou a espada que perfurou as mentiras de Lenin, Stalin e seus seguidores.
O Arquipélago Gulag mostrou que o comunismo não é apenas um sistema de violência, mas também uma ideologia criminosa, totalmente alheia à alma das pessoas.
O livro se tornou uma explosão política, social, moral e espiritual que acelerou o colapso do sistema soviético. Ela expôs os mitos sobre o “futuro brilhante” do comunismo, mostrando sua verdadeira face – a face do assassinato, das mentiras e da supressão de toda e qualquer humanidade.
O Arquipélago Gulag permanece inigualável em seu impacto sobre as mentes, e seu autor continua sendo um profeta cuja verdade acelerou o fim de uma tirania abominável.
Inclusive na Rússia moderna, o Arquipélago Gulag foi reimpresso mais de dez vezes e foi incluído no currículo escolar em 2009 para que os jovens conhecessem a verdade sobre as atrocidades do que foi o comunismo, e egundo o jornal francês Le Monde, o livro ficou em 15º lugar entre os melhores livros do século XX. Há alguns países, inclusive, que criminalizam an apologia ao comunismo da mesmíssima maneira com a qual criminalizam o nazismo.
Mas o verdadeiro valor desse livro é que se tornou uma arma quase que espiritual que esmagou mentiras pérfidas.
E agora, já finalizando, uma reflexão de minha parte: eu não compreendo porque tantas pessoas, mesmo diante de material barato, acessível e fidedigno, disponível à leitura e fornecedor de vasto conhecimento ainda insistem em defender o comunismo e os regimes de esquerda em geral, em pleno século XXI, no qual toda a brutalidade, a iniquidade e a hipocrisia foram já descortinadas. Eu não compreendo a quantidade de mulheres e de mães, muitas delas, que defendem esses regimes que se alimentaram por décadas inteiras do sangue de milhões de pessoas inocentes, dizendo-se feministas e protetoras de direitos…das mulheres. Eu não compreendo homossexuais que defendem em suas camisetas e bandeiras de assassinos declarados, psicopatas sádicos que flertavam com sexo oposto. Eu não compreendo os que fabricam a pobreza com perfeição milimétrica por meio de planos econômicos e assistencialistas que se dizem “a favor dos pobres”, mas que pensam somente em si próprios.
“A linha que separa o bem do mal não passa entre Estados, nem entre classes, nem entre partidos — ela atravessa o coração de todo ser humano.” Aleksandr Soljenítsin, em O Arquipélago Gulag.
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