A Virgem Vermelha
- Andre Rodrigues Costa Oliveira
- 27 de mai. de 2025
- 5 min de leitura
O meu nome é Andre Costa Oliveira e hoje nós falaremos sobre a Virgem Vermelha, construída em utopia, desejo de controle e tragédia.
A história de Hildegart Rodríguez começa muito antes de seu nascimento. Aurora Rodríguez, sua mãe, concebeu a filha não por desejo materno ou acaso biológico, mas como um projeto político.
Aurora, profundamente influenciada por ideologias absurdas sobre as quais falaremos em instantes, pretendia que a filha Hildegart fosse a mulher do futuro, uma entidade modelada para servir como exemplo e instrumento da revolução sexual, moral e social que sua mãe acreditava necessária para a regeneração da humanidade.
Esse desejo - na verdade um devaneio - de criar o “ser ideal” está profundamente enraizado no pensamento eugenista europeu de fins do século XIX e início do século XX. Eugenia, pessoal, era uma corrente de pensamento pseudocientífica que acreditava na possibilidade de “melhorar” geneticamente a raça humana através da seleção artificial — por casamentos planejados, controle de reprodução e até esterilizações forçadas.
E Aurora, motivada por tais ideias, acreditava sim que poderia fabricar uma filha perfeita se escolhesse o “pai ideal”, como quem escolhe ingredientes para uma receita de cozinha ou um garanhão reprodutor destinado a cruzamentos com as fêmeas de sua espécie. Só que o perigo começa a existir de verdade quando a política se transforma em engenharia social, e os homens passam a ser tratados como matéria-prima de experimentos ideológicos, como escreveu Hannah harendt em As Origens do Totalitarismo.
Foi exatamente isso que Aurora fez: transformou a filha em matéria-prima da sua utopia pessoal. O pai de Hildegart Rodríguez nunca teve um papel ativo em sua vida — sua identidade foi cuidadosamente planejada, mas depois ocultada pela mãe Aurora Rodríguez. Aurora escolheu um homem apenas como “doador biológico”, conforme seus ideais eugênicos.
A escolha foi Alberto Pallás, um militar galiciano, não por amor ou vínculo afetivo, mas por julgá-lo fisica e intelectualmente adequado para gerar a “criança perfeita” que ela idealizava.
Hildegart Rodríguez, nasceu em 9 de dezembro de 1914, em Madri, na Espanha.
Desde muito pequena, Hildegart foi tratada literalmente como um projeto. Foi alfabetizada precocemente, aprendia várias línguas, foi inserida no debate político, e tornou-se, ainda adolescente, figura proeminente em congressos socialistas, e feministas na Espanha.
Aliás, uma curiosidade: o seu nome, “Hildegart”, foi escolhido com precisão cirúrgica: Hildegard significa “jardim da sabedoria” em alemão arcaico.
Mas a mãe, como eu já disse, não via nela uma filha: enxergava puramente um símbolo, uma obra de arte viva. A maternidade, nesse caso, não era um gesto de entrega amorosa, mas um ato de construção. Aurora tratava a menina como um boneco moldável, uma estátua animada que jamais poderia desviar-se do roteiro planejado.
O psicanalista Erich Fromm advertiu certa vez sobre esse impulso na modernidade: “O amor imaturo diz: ‘Amo você porque preciso de você.’ O amor maduro diz: ‘Preciso de você porque amo você.’” Aurora não amava Hildegart como sujeito, mas como necessidade do seu projeto idealizado. Ela confundiu maternidade com controle, amor com posse.
Quando Hildegart começou a questionar sua mãe, aproximar-se de outros intelectuais, viver sua sexualidade e desejar autonomia, Aurora se desesperou. Ja que ela via a filha como algo sagrado, qualquer desvio era uma espécie de profanação.
E em 1933, Aurora matou Hildegart com quatro tiros enquanto ela dormia, sendo três no rosto e um na cabeça.
No julgamento, Aurora fez uma declaração profundamente impactante: O corpo de Hildegart me pertence. O erro em minha obra só podia ser destruído por mim mesma.”
E por que tão impactante? Porque a frase revela a natureza simbólica do crime: não foi um assassinato movido por ciúmes ou fúria momentânea, mas um sacrifício ideológico.
Ela não matou uma filha — matou o fracasso de uma ideia, matou a liberdade encarnada no outro. E aí a gente chega a conclusão - que se mostraria amplamente verdadeira na segunda guerra mundial e na união soviética - de que a fidelidade cega a uma ideia pode justificar os atos mais desumanos quando se perde o contato com a realidade concreta dos seres humanos.
Já analisando do ponto de vista psicanalítico, esse tipo de relação mãe-filha é profundamente marcado pelo narcisismo.
A filha não é percebida como um outro, mas como extensão do eu materno. Quando essa alteridade começa a se afirmar, ela se torna intolerável.
Jacques Lacan, em seu seminário sobre a transferência, explica: “Amar é, em última instância, querer ser amado na imagem que fazemos do outro”. Aurora não amava Hildegart como sujeito, mas como espelho de si mesma. Quando o espelho começou a trincar, Aurora quebrou o vidro abruptamente e com a fúria destrutiva de quatro disparos de arma de fogo.
Donald Winnicott, psicanalista que estudou profundamente as relações iniciais entre mãe e bebê, afirmou que “a tarefa da mãe é ser suficientemente boa: não perfeita, mas capaz de permitir que o filho se torne ele mesmo”.
E Aurora foi o oposto disso: incapaz de tolerar a separação simbólica, destruiu o que não podia controlar.
A história de Aurora e sua filha Hildegart também é um espelho da modernidade. Quando ideologias políticas substituem a dimensão espiritual ou ética, os indivíduos se tornam instrumentos e não fins.
A política e as ideologias modernas, em grande parte, substituíram várias instituições como por exemplo a religião em milhões de corações — com seus dogmas, mártires, profetas e sacrifícios.
A liberdade começa onde termina a dominação absoluta. Toda forma de governo total, mesmo doméstica, tende à negação dessa liberdade.
E no caso de Aurora? No caso de Aurora o “governo total” foi doméstico: a casa como laboratório ideológico, a filha como cobaia, o sangue como punição pela rebeldia.
E nos dias atuais, pessoal, seria possível estabelecermos algum paralelo dessa história trágica com fenômenos que vêm acontecendo?
Eu penso que hoje a imensa maioria da sociedade, tão moderna e tão arrogante, vem criando sim o seu espelho contemporâneo, que são filhos vistos como projetos e a ilusão moderna da perfeição absoluta.
Observem que hoje, tantos anos depois, vemos a repetição desse padrão em novas roupagens. Pais e mães que projetam nos filhos as suas frustrações e ambições, que os inscrevem em mil cursos e atividades, que os expõem nas redes sociais como troféus de desempenho.
Em outras palavras: pais e mães que estão transformando a infância e a juventude em vitrines de si mesmos. A sociedade moderna é repleta de pais que, sem saber, transformam seus filhos em objetos de narcisismo e instrumentos de validação pessoal. Pais e mães que não reconhecem nos filhos um outro — e que os julgam tais como fracassos pessoais quando não correspondem à imagem idealizada — repetem, em menor grau, o drama de Aurora.
A história de Hildegart Rodríguez é um aviso. Contra o idealismo cego, contra a transformação de seres humanos em projetos. Contra a instrumentalização da maternidade ou da paternidade como forma de vaidade ou redenção pessoal.
Pais não são engenheiros da alma de seus filhos. Filhos não são projetos de sucesso, nem plataformas para ambições frustradas. Todo amor verdadeiro exige a aceitação do outro como outro — ou seja, com liberdade, riscos e incertezas.
A tarefa dos pais é criar um ambiente onde o ser possa emergir, e não impor um ser ideal sobre o outro. Aurora tentou fabricar uma deusa. Matou uma filha. E nos deixou um retrato cruel — e necessário — de até onde o sonho de perfeição ideológica pode levar quando se perde o contato com o humano.
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