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O BEBÊ REBORN E A ESTÉTICA DO ABSURDO

  • Foto do escritor: Andre Rodrigues Costa Oliveira
    Andre Rodrigues Costa Oliveira
  • 27 de mai. de 2025
  • 4 min de leitura

O meu nome é Andre costa oliveira e eu tentarei ao máximo tratar do nosso tema da aula de hoje com profundo  respeito, mas também com a máxima sinceridade e fidedignidade, até porque eu nunca imaginei na minha vida abordar algo tão surreal.


O BEBÊ REBORN E A ESTÉTICA DO ABSURDO.


Gente, em que momento O AFETO SIMULADO ADENTRA O CAMPO da medicina? Não há dúvida de que vivemos tempos do que eu chamaria de deslocamento ontológico. Coisas que antes pertenciam ao campo da metáfora ou da ficção ganham corpo, direitos, nome, CPF, e — como no caso do “bebê reborn” — até atendimento em hospitais, como vem acontecendo em todo o mundo.


O que parecia inofensivo, quase pueril, agora escancara algo mais profundo: o colapso da distinção entre o real e o imaginário, entre o simbólico e o material, entre a dor verdadeira e sua caricatura.


O fenômeno do bebê reborn — que são bonecos hiper-realistas que imitam recém-nascidos — passou de um mero hobby artesanal a um simulacro terapêutico e, mais recentemente, a um escândalo do ponto de vista ético: há relatos verídicos de médicos e enfermeiros que, pressionados por tutores e tutoras desses bonecos, foram convocados a “atender” suas “crianças entre aspas.


Trata-se de um episódio tragicômico mas que exige uma reflexão profunda. Albert Camus definiu o absurdo como a ruptura entre o desejo humano de sentido e o silêncio indiferente do mundo. Em suas próprias palavras, o absurdo nasce deste confronto entre o apelo humano e o silêncio do mundo, isso em O Mito de Sísifo, publicado em 1942.


No caso dos bebês reborn, o que vemos é um deslocamento radical do apelo afetivo: seja da dor do luto, da solidão, do desejo maternal ou da infantilização psíquica tentando preencher-se não com vínculos reais, mas com a simulação extrema. Essa substituição do vínculo por um objeto — levado ao ápice do delírio quando o Estado ou o sistema de saúde se curva a essa fantasia — é a própria encarnação do absurdo.


Eu entendo que é necessário admitir que para algumas pessoas, o bebê reborn representa um tipo de conforto psíquico. Mulheres que perderam filhos, por exemplo, ou que não puderam ser mães, ou que sofrem de solidão crônica encontram nesses bonecos um substituto emocional. Compactuar com essa situação indefinidamente é omitir-se diante de uma situação psiquiátrica gravíssima. E essa situação psiquiátrica gravíssima fica ainda mais aterradora a fantasia começa a exigir reconhecimento público, institucional e até médico.


O psiquiatra Viktor Frankl, um dos pais da logoterapia e sobrevivente de três campos de concentração diferentes durante a segunda guerra mundial advertia-nos que Entre o estímulo e a resposta, há um espaço. E nesse espaço está o nosso poder de escolher a nossa resposta. E nessa escolha reside o nosso crescimento e nossa liberdade, frase escrita de seu livro intitulado Em busca de sentido, de 1946.


E o que eu quero explicar com isso é que o ato de você, adulto, substituir o enfrentamento do luto ou da solidão por um boneco de material sintético é basicamente escolher o conforto da ilusão em detrimento da saúde psíquica.


E quando isso é legitimado por instituições, o problema se agrava: o delírio deixa de ser privado para se tornar socialmente endossado. O bebê reborn não é apenas um brinquedo sofisticado. É um fetiche — no sentido psicanalítico — que encarna um desejo inconsciente, fixado em um objeto material que nunca poderá devolvê-lo.


Freud, aliás, ao falar do fetiche, via nele uma defesa contra o próprio trauma: o objeto torna-se um símbolo de negação, ou melhor dizendo, uma forma de recalcar a dor. O filósofo Byung-Chul Han, em seu livro A expulsão do outro (2016), diz que vivemos em uma era onde o diferente é substituído pelo igual, onde o outro real — com suas demandas, dores e imprevisibilidade — é trocado por representações controláveis.


E nesse contexto, o bebê reborn seria o que, pessoal? Seria o “outro” ideal: silencioso, obediente, manipulável, representando o triunfo da estética sobre a ética, do conforto sobre a alteridade.


A real é o seguinte: É escandaloso que profissionais da saúde, formados para lidar com corpos e almas reais, sejam convocados a medir a temperatura de um boneco ou simular cuidados neonatais em algo que, literalmente, não vive. Quando um hospital cede a isso, ele trai sua função fundamental, que é a proteção da vida. Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.” (João capítulo 8 versículo 23).


A medicalização do reborn é uma negação da verdade. Médicos não devem compactuar com o delírio, mas tratá-lo. Enfermagem não é teatro. E hospitais não são palcos para simular nascimentos ou acolhimentos que não aconteceram.


Jean Baudrillard, em Simulacros e Simulação descreve um mundo onde os signos se tornam mais reais que o real, e olha que ele escreveu isso há 44 anos. É o hiper-realismo — onde o bebê reborn não é só um boneco, mas uma cópia de algo que nunca existiu. E quando essa cópia exige espaço social, o real tende a recuar-se.


Baudrillard ainda afirma que Vivemos em uma época em que a realidade se ausenta e o simulacro toma seu lugar. Ou seja: pela lógica do simulacro, não é mais preciso parir, amar, criar ou perder um filho — basta comprar um boneco, fazer um enxoval, montar um quarto e exigir do mundo que entre nesse jogo bizarro.


Em resumo, pessoal: O fenômeno do bebê reborn não é apenas patético — é trágico. Ele simboliza o esvaziamento do real, o colapso das fronteiras entre sofrimento legítimo e encenação, entre terapia e fuga, entre cuidado e teatro.


Enquanto o mundo real — com crianças de verdade, doentes de verdade, mães e pais em sofrimento real — clama por atenção, tempo e recursos, hospitais estão medindo a glicose de um simulacro. É o triunfo completo do maior dos absurdos.


E é claro que devemos exercer a empatia e tratar com compaixão as dores que levam alguém a esse nível de fuga. Mas jamais devemos legitimar a fuga como se fosse verdade.


E aí eu menciono Jung, para quem o símbolo vivo cresce e muda à medida que o ser humano se desenvolve. Mas, se o símbolo não for reconhecido como símbolo, ele se transforma em idolatria — e a alma adoece.


O bebê reborn é isso: é um símbolo adoecido, idolatrado. E nossa sociedade, se quiser preservar a sanidade, o pouco que ainda existe, precisa reaprender a amar o real — mesmo quando ele dói no corpo e no espírito.

 
 
 

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