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O Cérebro Humano, os Mitos Científicos e a Evolução pela Cozinha

  • Foto do escritor: Andre Rodrigues Costa Oliveira
    Andre Rodrigues Costa Oliveira
  • 27 de mai. de 2025
  • 6 min de leitura

O meu nome é André costa oliveira e a nossa aula de hoje abordará questões sobre o Cérebro Humano, os Mitos Científicos e a Evolução pela Cozinha.


E o que o nosso cérebro teria a ver com a cozinha e a gastronomia? Absolutamente tudo, e isso é o que eu demonstrarei de forma muito clara a vocês todos. 


O cérebro humano é, sem dúvida, uma das mais impressionantes conquistas da evolução biológica, isso se não for a maior delas. Capaz de pensar, lembrar, criar, calcular, sonhar e planejar, ele não apenas nos distingue de todas as outras espécies, como também é o motor de nossas realizações culturais, tecnológicas e filosóficas.


Durante muito tempo, e aí eu me refiro a milênios, o conhecimento sobre esse órgão esteve envolto em mitos, misticismos, meias-verdades e generalizações absurdas e sem fundamentos.


Na aula de hoje eu proponho a revisitação a algumas dessas crenças, à luz de dados científicos atualizados, para compreender a verdadeira dimensão do cérebro humano — em sua estrutura, funcionalidade, exigências energéticas e papel central no processo evolutivo, especialmente no que diz respeito ao ato de cozinhar.


Em um brevissimo resumo, já se acreditou que o cérebro de maior tamanho seria por definição o mais inteligente, mas aí nós temos as baleias e os elefantes, por exemplo, que já derrubaram essa teoria.


Depois acreditou-se que o cérebro mais desenvolvido era o cérebro que mais guardaria alguma proporção com relação ao corpo do animal, o que também caiu por terra.


E por fim, a ciência descobriu que cérebros possuem neurônios.


E o que são neurônios, vamos lá, aulinha de biologia no ensino médio: Neurônios são células especializadas do sistema nervoso responsáveis por transmitir sinais elétricos e químicos. Ou seja: são a unidade básica da comunicação entre as diferentes partes do corpo e o cérebro, permitindo desde reflexos mais simples até pensamentos de altíssima complexidade.


Cada neurônio é composto por três partes principais, sendo o Corpo celular (soma)(que contém o núcleo e coordena as funções da célula); Os Dendritos, que são ramificações que recebem sinais de outros neurônios e o Axônio, que é o prolongamento que transmite os sinais para outros neurônios, músculos ou glândulas.


Os neurônios começaram a ser estudados com mais precisão e interesse apenas no final do século XIX, graças aos avanços da microscopia e das técnicas de coloração.


Eu diria que o marco inicial foi o trabalho de toda uma vida executado pelo médico e histologista espanhol de nome Santiago Ramón y Cajal, e que merecidamente é considerado o pai da neurociência moderna.


No final dos anos 1800, ele utilizou a técnica de coloração desenvolvida por outro cientista chamado Camillo Golgi(coloração com nitrato de prata) para visualizar neurônios de forma isolada.


Canal portanto foi o primeiro a demonstrar que o cérebro era composto por células individuais — e não uma massa espessa e contínua — estabelecendo o que ficou conhecido como “doutrina do neurônio.


Aliás, em reconhecimento a suas descobertas, Cajal e Golgi receberam juntos o Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina em 1906, embora discordando em alguns pontos sobre a estrutura do sistema nervoso, mas isso não vem ao caso agora.


Um dos mitos mais persistentes sobre o cérebro humano era a suposta afirmação de que ele possuía 100 bilhões de neurônios.


Curiosamente esse número que ninguém sabe até hoje de onde surgiu foi repetido por décadas em livros, aulas e programas de divulgação científica, sem que existisse uma contagem direta e experimental que o confirmasse.


Só que bem recentemente, a ciência com métodos mais precisos de análise celular, conseguiu criar uma espécie de detergente que aniquilava partes dos neurônios preservando os núcleos desses neurônios, permitindo aí que fossem contatos num espaço reduzido e depois multiplicados pra que chegássemos a um número correto, estabelecendo então que o número real de neurônios no cérebro humano adulto gira em torno de 86 bilhões, guardem esse número.


Muito embora a diferença quantitativa pareça pequena, ela simboliza algo bem maior: a importância de fundamentar o conhecimento científico em evidências experimentais rigorosas, em vez de se contentar com tradições orais ou com suposições populares.


Outra crença largamente difundida é a de que usamos apenas 10% do nosso cérebro. Essa ideia romântica — e falsa — insinua que haveria aí um potencial oculto esperando para ser ativado, como todo mundo deve já ter escutado ao menos uma vez na vida.


No entanto, pessoal, as evidências disponíveis já confirmam que usamos praticamente todas as regiões do cérebro, embora não de forma simultânea.


Cada área tem uma função específica, e diferentes atividades acionam diferentes circuitos neurais, que funcionam de uma maneira altamente criativa e não raramente imprevisível.


Mesmo durante o sono, inclusive, há intensa atividade cerebral, especialmente em áreas ligadas à memória e à reorganização das experiências do dia.


E agora vocês devem já estar se perguntando: o que a cozinha da minha residência tem a ver com isso?


Essa é a segunda parte da nossa aula: em termos funcionais, o cérebro humano é extremamente exigente. Embora pese cerca de 1,4 kg — o que representa apenas 2% da massa corporal total de uma pessoa entre 60 e 70 quilos —, ele consome aproximadamente 25% da energia total do nosso corpo em repouso. E de quanta energia nosso corpo necessita todo dia? Algo entre 3.000 calorias, sendo que 25% dessas calorias de destinam a um único órgão que pesa, como eu já disse, apenas é tão-somente 2% do seu corpo, num cálculo de regra de três bem básico que a gente também estuda no ensino médio.


Essa desproporção energética é o preço a se pagar por manter em funcionamento um sistema nervoso central altamente especializado, capaz de processar informações sensoriais, coordenar movimentos complexos e sustentar o pensamento simbólico e a linguagem.


E esse alto custo energético impõe uma limitação importante à evolução: o crescimento e o desenvolvimento do cérebro humano - aliás de qualquer cérebro de qualquer animal sobre a face da terra - só é possível se houver uma fonte calórica eficiente que o sustente.


E aí nós temos um enorme divisor de águas: em algum momento entre 1,7 milhão de anos atrás e 300 mil anos atrás os nossos ancestrais pré-históricos passaram a dominar o fogo, usado para se aquecer, afastar predadores, iluminar, socializar e cozinhar, sendo esse domínio essencial a evolução cultural, cognitiva e biológica do Homo sapiens.


E é exatamente nesse ponto que o ato de cozinhar alimentos (especialmente proteína animal) se revela um dos grandes marcos da evolução humana, lembrando aí que, em teoria, qualquer transformação do estado in natura de um alimento também é interpretado como cozimento, como a salga, a salmoura, a defumação etc.


Compreendam que, ao cozinhar sobretudo com o fogo, o ser humano consegue a proeza de transformar um alimento cru em uma refeição mais macia, palatável, digerível acima de tudo rica em calorias disponíveis, e das quais necessitamos. A própria quebra das fibras e de proteínas por meio de processos térmicos permite que o organismo gaste menos energia na digestão e absorva mais nutrientes em menos tempo.


Isso representa um ganho evolutivo formidável: com menos esforço metabólico, tornou-se possível um cérebro maior, bem mais desenvolvido e ainda mais complexo.


E por isso eu lhes pergunto: o que é o cozimento senão a pré-sugestão do alimento só que fora do seu corpo? Quanto tempo vocês passam se alimentando em 24 horas? 2, 3 horas no máximo. Já outros primatas superiores que consomem alimentos majoritariamente crus, para se manterem vivos necessitam alimentar-se por 13, 14 ou até 15 horas ao longo de um único dia.


Um gorila, por exemplo, tem somente dois pares de cromossomos a mais do que a gente (ele tem 48 cromossomos (24 pares) e nós temos 46 cromossomos (23 pares), sendo que ele passa quase 3/4 de seu dia buscando alimento e fica lá floresta, “gorilando”, enquanto a gente edifica cidades inteiras, pratica a medicina, comunica-se virtualmente, leva o homem ao espaço, cria leis e estados inteiros, faz filosofia etc.


Ah, e um detalhe: nós compartilhamos cerca de 98,3% do DNA com os gorilas; são DNA’s praticamente idênticos porém ao mesmo tempo imensamente diferentes.


E então finalizando: o tamanho e a funcionalidade do cérebro humano não são apenas produtos do acaso evolutivo, mas sim o resultado de múltiplos fatores interligados: exigência energética, adaptação dietética e invenções culturais sendo a principal de todas o domínio do fogo.


A cozinha não foi apenas um espaço de sociabilidade e de troca de conhecimentos ao redor de uma fogueira ou uma mesa, mas sim uma tecnologia crucial para a transformação da biologia humana.


Com o cozimento, viabilizou-se o crescimento cerebral, e com o crescimento cerebral, emergiu a linguagem, o pensamento simbólico, a abstração, a memória de longo prazo e, por consequência, a civilização.


E por isso a partir de hoje eu sugiro que todos vocês contemplem as suas cozinhas com o máximo de reverencia possível.


E eu penso que revisitar essas questões é essencial não apenas para corrigir ideias equivocadas sobre o funcionamento do cérebro, mas também para reconhecer a profundidade das interações entre corpo, cultura e ambiente ao longo da história humana.


Em vez de mitos reconfortantes, a ciência nos oferece a maravilha da realidade: um cérebro que consome energia como um atleta em repouso, que funciona em sua totalidade e cuja existência, paradoxalmente, depende de algo tão simples e tão revolucionário, tão magnífico quanto cozinhar.

 
 
 

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