O Espanto como Gatilho do Conhecimento e seu Papel na Sociedade Atual
- Andre Rodrigues Costa Oliveira
- 27 de mai. de 2025
- 5 min de leitura
Aristóteles, no início de sua Metafísica, afirma que “todos os homens, por natureza, desejam conhecer” (980a). Essa ideia sugere que o impulso pelo conhecimento é inerente à condição humana, como uma necessidade fundamental. No entanto, esse desejo, por si só, nem sempre se manifesta de maneira espontânea. É preciso um estímulo, um gatilho que ative a busca pelo saber. Aristóteles aponta o espanto(thaumázō) como esse mecanismo: a filosofia e a ciência nascem da admiração e do assombro diante do desconhecido. A partir daí então surge um questionamento essencial: como esse princípio se aplica à sociedade contemporânea e ao direito ao conhecimento?
1. O Espanto Como Origem do Conhecimento
Para Aristóteles, o ser humano se maravilha com aquilo que não entende. Essa admiração desperta a curiosidade e leva à investigação. Esse processo não ocorre apenas com os filósofos, mas com qualquer pessoa que, diante de um fenômeno inesperado, sinta a necessidade de compreendê-lo. A criança que pergunta incessantemente “por quê?” ilustra bem essa característica humana.
O espanto também esteve presente nos grandes momentos da história do conhecimento. As descobertas científicas, os avanços filosóficos e as revoluções tecnológicas muitas vezes começaram com uma pergunta originada pelo assombro: Por que as estrelas se movem no céu? Por que os objetos caem? O que é a vida?Sem essa inquietação inicial, a humanidade não teria desenvolvido o pensamento racional e investigativo.
2. O Direito ao Conhecimento e os Obstáculos Atuais
Se o desejo de conhecer é natural e o espanto é seu gatilho, então o acesso ao conhecimento deveria ser garantido a todos. No entanto, ao longo da história, diferentes sistemas de poder tentaram controlar ou limitar esse acesso. Desde a censura de livros na Idade Média até a manipulação da informação na era digital, o conhecimento muitas vezes foi tratado como um privilégio de poucos, não como um direito universal.
Na sociedade contemporânea, a abundância de informações não significa, necessariamente, mais conhecimento. O excesso de dados e a superficialidade das redes sociais podem anestesiar o espanto e reduzir a capacidade crítica. Se tudo parece imediatamente acessível e explicável por meio de respostas rápidas e superficiais, a admiração genuína pode se perder. Em um mundo onde o algoritmo decide o que vemos, será que ainda nos permitimos espantar?
Além disso, há desafios estruturais: desigualdade educacional, restrições ao pensamento crítico e até a desvalorização da cultura e da ciência. O direito ao conhecimento não se resume ao acesso a informações, mas também à possibilidade de questionar, refletir e desenvolver um pensamento autônomo.
3. Como Resgatar o Espanto e o Desejo de Conhecer?
Se o espanto é o motor do conhecimento, então qualquer sociedade que valorize o saber deve incentivar a curiosidade e a capacidade de se admirar. Isso passa por uma educação que estimule o questionamento, em vez de apenas oferecer respostas prontas. A filosofia, a ciência e as artes desempenham um papel fundamental nesse sentido, pois cultivam a capacidade de se maravilhar e de buscar explicações mais profundas sobre o mundo.
Além disso, é essencial resgatar o tempo para o pensamento. A rapidez da informação nem sempre favorece a reflexão. Para que o espanto se transforme em conhecimento verdadeiro, é necessário um espaço de contemplação, dúvida e aprofundamento.
Conclusão
O espanto continua sendo, como na época de Aristóteles, a porta de entrada para o conhecimento. No entanto, em um mundo acelerado, onde a informação está disponível instantaneamente, mas nem sempre de maneira significativa, é fundamental resgatar a capacidade de se surpreender e questionar. O direito ao conhecimento não deve ser apenas o direito de acessar dados, mas o direito de se espantar e, a partir disso, buscar compreensões mais profundas da realidade. Afinal, sem espanto, não há verdadeira filosofia, ciência ou progresso humano.
Então o excesso de corda no relógio trava o relógio. O excesso de informação trava e anestesia esse impulso
Na psicanálise, o desejo de conhecimento pode ser analisado sob diferentes perspectivas, especialmente a partir das teorias de Freud e Lacan.
1. Freud: O Conhecimento como Sublimação e Desejo de Domínio
Para Freud, o desejo de conhecer está profundamente ligado à curiosidade infantil e ao desejo de dominar o desconhecido. Desde cedo, a criança se depara com enigmas — sobre sua origem, sobre o corpo, sobre a sexualidade. Essa curiosidade pode ser vista como uma forma de pulsão epistemofílica, ou seja, um desejo intenso de saber, que muitas vezes encontra resistência na censura social ou no medo do desconhecido.
Além disso, o desejo de conhecer pode ser um caso de sublimação, um conceito freudiano que explica como certas pulsões (particularmente as de origem sexual ou agressiva) são transformadas em atividades socialmente aceitáveis, como a ciência, a arte ou a filosofia. Assim, o espanto que leva à busca do conhecimento pode ser uma forma de canalizar pulsões mais primitivas, dando-lhes um significado cultural elevado.
No entanto, Freud também alerta para o desejo de conhecimento como uma forma de controle. O saber pode ser usado para dominar, manipular e reduzir a angústia diante do incerto. Assim, existe uma ambiguidade: conhecer pode ser libertador, mas também pode ser um meio de evitar o enfrentamento com o desconhecido.
2. Lacan: O Desejo de Conhecimento e o Sujeito do Inconsciente
Para Lacan, o desejo de conhecer se insere na estrutura do desejo humano como um todo. Ele trabalha com a ideia de que o desejo nunca é plenamente satisfeito — sempre falta algo. O conhecimento, nesse sentido, pode ser visto como uma tentativa de preencher essa falta, uma busca incessante por um saber absoluto que, no fundo, nunca pode ser alcançado.
No seu ensino, Lacan fala do “sujeito suposto saber”, um conceito que aparece no contexto da relação entre o analisando e o analista. O analisando acredita que o analista detém um saber sobre seu próprio inconsciente, e essa crença sustenta o processo analítico. Isso nos mostra que o desejo de conhecer muitas vezes se estrutura em torno da suposição de que o outro sabe algo que nos falta.
Além disso, Lacan explora a relação entre o desejo e o real, a dimensão da experiência que escapa à linguagem e ao conhecimento racional. O espanto aristotélico, nesse sentido, poderia ser interpretado como um encontro momentâneo com esse real — um choque que nos impulsiona a buscar significados, mas que nunca pode ser completamente apreendido.
3. O Espanto Como Motor do Desejo e do Saber
Se pensarmos no espanto aristotélico à luz da psicanálise, podemos interpretá-lo como uma manifestação da falta que estrutura o desejo. O espanto surge quando encontramos algo que desafia nossa compreensão e nos faz sentir que há um vazio a ser preenchido pelo saber. Esse vazio, no entanto, nunca é completamente preenchido, o que nos mantém em movimento, sempre em busca de mais respostas.
Dessa forma, a psicanálise nos ajuda a entender que o desejo de conhecimento não é apenas um impulso racional e objetivo, mas algo atravessado pelo inconsciente, pela fantasia e pela própria estrutura do desejo humano. O saber, assim como o amor, nunca se dá de maneira plena, mas sempre como uma promessa, um horizonte a ser alcançado.
Conclusão
Tanto Aristóteles quanto a psicanálise reconhecem que o desejo de conhecer é essencialmente humano, mas a psicanálise acrescenta a dimensão da falta: buscamos conhecer porque sentimos que nos falta algo. O espanto pode ser visto como o momento em que essa falta se torna evidente, e a busca pelo saber, como a tentativa de dar-lhe um contorno, mesmo que provisório. Assim, o conhecimento não é apenas uma conquista objetiva, mas um processo contínuo, impulsionado pelo desejo e marcado por limites que nunca podem ser totalmente superados.
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