Os Soldados da Borracha
- Andre Rodrigues Costa Oliveira
- 27 de mai. de 2025
- 3 min de leitura
O meu nome é André costa oliveira.
Os chamados soldados da borracha foram trabalhadores recrutados pelo governo brasileiro de Getúlio Vargas durante a Segunda Guerra Mundial para extrair o látex da Amazônia e abastecer os Aliados com borracha — matéria-prima crucial para pneus, botas, luvas e milhares de outros itens, ferramentas e peças militares.
A história desses homens é uma história dramática e frequentemente esquecida da participação do Brasil no esforço de guerra. Aliás, eu até acho que pouquíssimas pessoas sabem dessa história.
Foi basicamente o seguinte: Durante a Segunda Guerra Mundial, o Japão tomou o controle do sudeste asiático — região responsável por mais de 90% da produção mundial de borracha natural, o que causou uma enorme crise internacional.
Os Estados Unidos, então, buscaram fontes alternativas. A Amazônia, que já havia sido o centro da economia da borracha no final do século XIX, voltou a ser estratégica.
E assim, em 1942 foi firmado um acordo conhecido como Acordo de Washington entre o Brasil e os EUA, que previa o envio de borracha em troca de apoio militar e econômico.
O governo de Getúlio então, por meio do do Serviço Especial de Mobilização de Trabalhadores para a Amazônia (SEMTA), lançou uma campanha massiva para recrutar homens do Nordeste brasileiro, que na época enfrentava grave seca e imensa pobreza - o que lamentavelmente não mudou nesses 80 e poucos anos para cá.
A propaganda era focada em pessoas que viviam em profundo estado de vulnerabilidade, prometendo bons salários, comida farta e até um “éden amazônico”, o que nunca ficou muito claro sobre o que seria isso.
Cerca de 70 mil homens, quase na totalidade nordestinos, aceitaram o chamado e foram transportados em navios norte-americanos à floresta amazônica — só que sem saber o que os esperava.
Ao chegarem à Amazônia, os soldados da borracha enfrentaram uma realidade brutal: Falta de infraestrutura, dormindo em barracões precários no meio da mata. Doenças tropicais como a malária, febre amarela, leishmaniose, picadas de cobras e insetos. Trabalho exaustivo, já que coleta do látex era uma tarefa diária, com jornadas absurdas mesmo sob o sol e o calor escaldante e tempestades violentas chuva. Endividamentos sucessivos, porque os seringalistas vendiam mantimentos aos soldados da borracha a preços abusivos, e os trabalhadores ficavam presos em ciclos de dívida, o que hoje é conhecido como o exercício de trabalho análogo à escravidão.
Fato incontroverso é que mais de 35 mil deles morreram devido a isso tudo e sem nunca pegar em armas, mas ainda assim servindo ao esforço de guerra com o próprio corpo.
E como é que acabou essa história? Com o fim do conflito em 1945 os Estados Unidos abandonaram o acordo, e o Brasil deixou de precisar da borracha amazônica.
Os soldados da borracha foram esquecidos, sem indenizações, sem passagem de volta, muitos deles terminando os dias na própria floresta e outros vivendo em condições precárias em bairros marginalizados nas cidades amazônicas.
Durante décadas eles lutaram por reconhecimento e pensões, e somente nos anos 2000 o governo brasileiro passou a oferecer indenizações simbólicas e uma pensão vitalícia modesta aos poucos soldados da borracha que ainda estavam vivos — e, claro, muito aquém do que mereciam. Inclusive, diferentemente dos soldados da Força Expedicionária Brasileira (FEB) que lutaram na Itália, os soldados da borracha não receberam nem mesmo algum status militar.
A história desses homens hoje é lembrada como a história de heróis esquecidos da Segunda Guerra Mundial que foram submetidos ao trabalho forçado disfarçado de patriotismo sem que fossem prisioneiros de guerra, com irreparável sacrifício humano e injustiça histórica.
Esse episódio deve e merece ser contado especialmente aos nordestinos brasileiros, cujos ancestrais recentes foram enganados, coagidos, explorados à exaustão e posteriormente esquecidos.
Até mesmo para que situações futuras de enganação, de coação, de exploração e de esquecimento das pessoas do nordeste brasileiro não mais se repitam. E eu digo isso porque nós sabemos que talvez esteja acontecendo novamente, só que agora com promessas diferentes de políticos astutos.
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